Série completa de romance contemporâneo +18

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Você acha que a sociedade é injusta com as mulheres? É justo que uma mulher que cria seus filhos sozinha seja marcada como uma mãe ruim por uma coisa ou outra e que um homem que cria seus filhos sozinho desperte olhares de compaixão e palavras de apoio e encorajamento?

Sim, Alexis sabe como a sociedade é injusta porque dia após dia a vida se encarrega de lembrá-la disso; e senão, há sempre Bethany Malone para lembrá-la que, como mãe e mulher, ela é um desastre.

Mas Alexis se esquiva – um pouco – do comentários dos outros desde que seus filhos tenham comida na mesa, um teto que os proteja e a ela, sobretudo ela, para lhes dar o amor que só as mães sabem dar.

Da sua parte, Henry é viúvo e a morte repentina de sua esposa somada à pré-adolescência de sua filha não facilitam as coisas para ele; felizmente, não lhe falta ajuda, embora não goste da compaixão que têm por ele e que, por ser homem, seja considerado um inútil em casa ou no que diz respeito à educação de sua filha.

O que vai acontecer quando Henry e Alexis se cruzarem e descobrirem que podem se apoiar como uma equipe, embora suas vidas sejam tão

Alexis estacionou o carro na frente do colégio dos seus filhos sentindo a pressão recorrente na boca do estômago porque, mais uma vez, chegava atrasada para buscá-los.
Ela sabia que todos acreditavam que ele era a rainha da impontualidade, mas não era assim e fazia muito tempo desde que ela parou de se justificar para aqueles que não sabiam nada sobre ela.
Não era impontualidade, era que ela só não sabia como diabos fazer seu trabalho e chegar à escola a tempo de buscar seus filhos ou como chegar a uma reunião de pais e professores no colégio sem faltar ao trabalho.
Ninguém estava em condições de entender que ela só se incumbia de manter seus filhos em segurança em uma casa que, de maneira nenhuma era a casa que ela queria dar a eles, mas precisava se contentar com isso e que, graças a Deus, seus filhos estavam com ela. Além disso, não lhes faltava comida ou roupa adequada para cada estação do ano, mesmo que fossem de segunda mão porque, mais uma vez, isso era tudo que ela poderia dar a eles apesar de ter dois empregos, às vezes um terceiro. Era mãe solteira e sem nenhum parente próximo na cidade, no continente ou no resto do mundo.
Era só ela e seus filhos e a verdade era que nunca havia pedido nada a ninguém, no entanto, também não queria que fornecessem suas opiniões sobre impontualidade, desorganização, falta de caráter com seus filhos e muito menos que falassem como ela passava pouco tempo com eles porque ninguém tinha a menor ideia de como era sua vida.
Seus filhos estavam na sala de castigos, embora não estivessem de castigo, junto com a senhorita Louise que sorriu com doçura quando a viu.
Os dois pequenos estavam envolvidos em uma briga, como sempre e Floyd, o filho mais velho, estava lendo um livro que havia emprestado da biblioteca pública alguns dias antes.
Dylan e Toby, os gêmeos e membros mais novos da família Powell, correram até ela para abraçá-la e pular ao seu redor enquanto ela desgrenhava seus cabelos com entusiasmo. Esses pequenos sorrisos e os olhos brilhantes dessa dupla de pestinhas alegravam seu dia, embora a deixassem sem energia em pouco tempo.
A sala de aula estava vazia… ou quase… o que era bastante estranho.
— Obrigada, Louise — a professora assentiu compreensiva. — Não sei o que vou fazer quando você não for mais a professora de Floyd.
Era o segundo ano que a professora tinha Floyd entre seus alunos e ficava feliz que fosse assim porque ela sabia que a vida de Alexis não era fácil. Podia perceber o cansaço em seu olhar, a vontade de ter um pouco mais de tempo para compartilhar com seus filhos sem sentir que as faturas se acumulam. Ela compreendia bem porque sua irmã tinha vivido algo semelhante, apenas com dois filhos a menos e muito apoio familiar.
Não conhecia a história de Alexis porque nunca se atreveu a falar com ela sobre o assunto e a garota não dava sinais de querer contar a ninguém sobre o fardo que carregava nas costas.
Louise suspirou com preocupação no olhar.
Alexis reconheceu o suspiro da professora de imediato.
Sabia que a professora de Floyd era diferente do resto das pessoas ao seu redor, mas não podia deixar de pensar o que esse suspiro representava para a maioria das pessoas: a nítida censura pela maneira como cuidava do caos que sempre reinava ao seu redor e a pouca agilidade que tinha para colocar ordem nesse caos.
Não por falta de tentativa. Não. Sempre que podia, ela tentava, mas não conseguia, por um motivo ou outro e sem perceber, se deixava absorber de novo pelo caos.
Parecia que o desastre era parte de sua vida desde que nasceu.
Talvez por isso a senhorita Louise tenha se apiedado dela na primeira semana de aula quando chegou atrasada a semana toda para buscar os meninos.
Sempre se perguntava se a professora já tinha tido um caso parecido e uma vez quis perguntar, mas preferiu omitir sua curiosidade de descobrir se havia outras mães e mulheres em geral com a mesma sorte e poucas habilidades que ela própria possuía.
Ela duvidava.
O resto da comunidade feminina da escola, durante todos aqueles anos, havia demonstrado que pelo menos nessa escola, cidade e talvez estado do país, ela era a única que parecia não ter nada sob controle desde que nasceu.
— No próximo ano veremos como tudo progride com você e as crianças. Creio que você deve deixar as regras um pouco mais claras porque elas precisam disso.
Alexis queria desmoronar com ela e dizer, chorando sem se conter, que estava exausta de tentar algo que não sabia como fazer. Que sentia que vivia em uma competição com as outras mães, em que sempre saia perdendo porque nunca tinha tempo suficiente, a casa perfeita, os filhos exemplares, o marido amoroso e a família ideal.
Ela não tinha e não sabia como alcançar isso.
Mas tinha claro que desmoronar na frente dos seus filhos não era adequado, além disso, a garota que estava sentada dois lugares atrás de Floyd tinha os olhos fixos nela e não queria ser a protagonista de uma cena dramática na frente de uma pré-adolescente que, certamente, no dia seguinte zombaria dela com suas amigas.
Todos os dias era a mesma coisa com sua vida e suas emoções. Desde que engravidou dos gêmeos parecia que corria uma maratona de maneira perpétua e sem direito a parar para poder pensar em si mesma por pelo menos cinco minutos.
A senhorita Louise a observou mais uma vez e levantou-se para se dirigir as crianças.
— Vocês precisam ouvir a mamãe e ajudá-la com tudo em casa, entendido?
Os gêmeos, com cinco anos, sorriram felizes e concordaram com a cabeça. A professora sorriu para eles e ficou em pé novamente para olhar nos olhos de Alexis.
— Os gêmeos têm um bilhete da professora. Ela quer ver você.
Alexis fechou os olhos e desanimou, deixando dissipar a pouca força que tinha para o resto do dia.
Mais uma vez, ela teria que ver a professora dos gêmeos, que tinham uma personalidade diretamente proporcional ao sabor de um limão.
— Você precisa se organizar mais, Alexis. Vai te fazer bem, já falamos sobre isso antes. Posso ajudá-la.
— Eu sei, Louise. Eu agradeço e não quero ser grosseira com você porque você é sempre gentil comigo, mas sou humana, mãe solteira de três crianças — Alexis começou a perceber como sua voz tremia e parou de falar de imediato. Ela balançou a cabeça e suspirou profundamente enquanto Floyd guardava seu livro e se aproximava dela para abraçá-la também. O menino, quase adolescente, apoiou a cabeça em seu peito e ela deu um beijo no alto da sua cabeça. Ela olhou para a professora mais uma vez —: Vou tentar de novo. Obrigada por sua paciência.
A professora sorriu satisfeita.
— Sei que você vai conseguir. Não pare de tentar e enquanto eu estiver no colégio e seja possível, irei ajudá-la.
Elas se despediram e depois ela saiu da sala de aula com seus três filhos. Floyd caminhando ao seu lado e os gêmeos correndo como se fossem perseguidos por um tigre enfurecido.
Alexis não sentiu uma preocupação maior até que viu as crianças abrirem as portas do colégio e saírem desenfreadas e enquanto acelerava o passo para segui-las, seu coração acelerou ao ouvir o guincho dos pneus de um carro.

***

— Vocês estão bem?! Que diabos! Quantas vezes devo dizer que vocês não podem correr assim? — os meninos observavam a mãe com arrependimento, mas também com a falta de interesse que sempre lhe dedicavam quando ela se alterava. — Estou cansada de dizer que …
Um homem pigarreou.
Ela olhou para cima, pois até agora estava agachada na altura dos gêmeos enquanto os repreendia.
Foi então que ela percebeu que havia um carro parado atrás dela. Não havia mais carros na rua e seus filhos estavam muito longe dela. Ou seja, seus filhos não correram perigo, no entanto, as caras do diretor Martin e de Bethany Malone, a perfeita mãe exemplar e além disso presidente da Associação de Pais e Representantes eram … como dizer… a mesma cara de preocupação e reclamação por sua negligência maternal.
O outro homem, aquele que tinha as chaves do carro na mão, olhava para ela com compaixão.
Esses eram os olhares que Alexis costumava suscitar: preocupação, negação, reclamação, ódio e compaixão.
Os olhares de amor e diversão vinham somente dos seus filhinhos porque até a mulher mais velha já havia entrado no grupo que acreditava que ela e tudo ao seu redor era um caso perdido.
— Sinto muito, a culpa é minha — o homem do carro disse de imediato.
O diretor do centro olhou para ela com desaprovação e para o homem dedicou um olhar de incredulidade.
— É verdade que, nesse caso, o Sr. Price foi culpado de ocasionar um barulho tão terrível porque vinha bastante distraído e quase bate atrás do seu carro, Sra. Powell — o homem levantou os óculos enquanto fazia uma pausa e avaliava a chicotada verbal que daria a Alexis a seguir —: no entanto, se você tivesse chegado no horário de saída indicado e além disso, indicasse aos seus filhos quem estava no comando e mostrasse a eles com mais frequência quem é o adulto, você não estaria com o coração na garganta temendo o pior em relação a essas crianças.
Alexis quis responder de uma maneira consistente com seu comentário, mas considerou isso uma perda de tempo.
— Você se salva porque a distração do Sr. Price estava muito longe dos seus filhos porque —ele suspirou e balançou a cabeça —, eu teria sido obrigado a chamar o serviço social e denunciar seu caso. Eu já te adverti antes e …
Alexis parou de ouvir o diretor, que sempre dizia a mesma coisa. Ele a ameaçava com o serviço social, repreendia-a e depois a deixava ir embora sob um olhar acusatório e crítico. Era a dinâmica de sempre e Alexis já estava acostumada a isso.
Claro, nesse dia foi muito diferente porque tudo estava sendo presenciado pela idiota da Bethany Malone que tinha sua vida perfeita e maravilhosa, com seus filhos perfeitos, em uma casa que parecia um castelo, não apenas pelo tamanho, mas pelo brilho e que, certamente, sempre cheirava a torta de maçã recém-assada.
E se juntava ao clube daqueles que olhavam para Alexis com desaprovação, mas Bethany também acrescentava alegria porque, por trás daquela fachada de dona de casa perfeita e de mãe que pode fazer tudo, escondia-se uma harpia que se deleitava ao ver como Alexis afundava cada vez mais em sua vida desastrosa.
Desde que seu filho começou a estudar nessa escola, Bethany fazia questão de lhe dizer —sempre que possível — que péssima mãe ela era e quão mal estava fazendo as coisas na vida.
Como se ela não soubesse.
Como se mais ninguém na sua vida tivesse se encarregado de dizer isso antes com palavras ou olhares.
E para os olhares críticos e acusatório dos outros, ela já estava acostumada, mas não quando se tratava de Bethany porque odiava sentir essa vergonha que sentia quando estava diante dela. Sempre tão arrumada, tão elegante com sua simpatia habitual, falsa ou não, era o que ela deixava os outros verem e Alexis teria adorado ter uma pitada dessas qualidades para poder dar outra impressão ao mundo.
— Você está me ouvindo? — Bethany sorriu com malícia para ela e o diretor deixou transparecer que seu descontentamento sincero se acentuava.
O homem do carro não estava mais lá. Ela não percebeu quando ele partiu embora o carro permanecesse estacionado no mesmo lugar.
— Sim, senhor, sinto muito. Não voltará a acontecer.
Ela desviou o olhar de ambos e encorajou seus filhos, que por algum milagre divino permaneciam parados ao seu lado, a entrarem no carro e irem embora dali o quanto antes.
Precisava chegar em casa, tirar os sapatos e deitar-se na sala de estar um pouco para ver TV com as crianças para recuperar as forças e depois lutar com os gêmeos até a hora de dormir.

Romance leve, curto e engraçado.
Rita tem 42 anos, dois filhos e um ex-marido que ela ama desde que o conheceu.

Eles se divorciaram há dez anos porque não queria colocá-lo na difícil situação de ter que escolher entre ela e sua família. Ou seja, sua outra família, aquela que vem com sua mãe, seu pai e irmão que nunca aceitaram Rita completamente e que sempre quiseram dar sua opinião e decidir sobre seu casamento… e sobre seus filhos além do que tinham direito.

Como esperado, alguns anos depois, Bill refez sua vida com Louise.
Rita presumiu tê-lo perdido, até que Penny, sua filha mais velha, chega chorando em seus braços e pedindo ajuda porque sua avó e tia estão assumindo atribuições que não lhes correspondem nos preparativos do casamento de Penny e Todd.

É quando Rita descobre que Bill está se divorciando de novo.

Rita não vai permitir que os sonhos da sua filha sejam arruinados como permitiu que seu casamento fosse arruinado e isso fará com que ela tenha um encontro ‘muito’ próximo com Bill.

Será esse encontro o início de uma segunda chance para Rita e Bill ficarem juntos novamente e sem repetir os erros do passado?

Rita estava se servindo de um copo de água na cozinha quando ouviu a porta da frente se abrir.
Ela ficou surpresa, porque não esperava que nenhum dos seus dois filhos a visitasse naquele dia.
Tyler estava estudando fora da cidade e Penny havia se mudado desde que formalizou seu relacionamento com Todd.
Caminhava em direção à porta quando ouviu os soluços.
Acelerou seu passo fazendo com que se deparasse com Penny no meio do caminho. Rita abriu os braços para sua filha assim que viu seus olhos vermelhos e inchados de tanto chorar.
Pensou o pior, que tudo entre ela e Todd tivesse terminado porque para Penny chorar como ela estava chorando, parecia um sinal de que tudo acabou, de que o casamento estava cancelado e de que teria sua filhinha novamente em casa por alguns dias.
Estava com medo de fazer a pergunta, mas precisava entender qual era a situação que a angustiava dessa maneira.
Respirou fundo.
— Querida — acariciou seu cabelo como fazia quando ela era criança e apoiava a cabeça em seu colo para assistir TV —, preciso que você se acalme e que me explique o que aconteceu entre vocês.
De imediato, Penny parou de chorar e afastou-se de sua mãe franzindo o cenho, deixando muito claro que não entendia a que se referia.
Rita enxugou suas lágrimas e a conduziu até o sofá de dois lugares que tinha na sala de estar.
Elas se sentaram.
Penny ofegou, revirando os olhos.
— Mamãe, você acredita que isso é porque aconteceu algo entre Todd e eu?
Rita ergueu as sobrancelhas e assentiu.
O que mais poderia deixar sua filha em tal estado?
— É culpa da titia e da vovó.
Ahhhhhhh, então era isso.
Penny começou a chorar de novo.
Rita continuava sem entender muito bem.
Respirou fundo.
— Deixe-me entender bem, querida, aconteceu algo com elas?
Penny respondeu que não.
Bem, se não era isso, então era a outra opção, que Rita não sabia se era a que preferia para que sua filha vivenciasse.
Respirou fundo mais uma vez e pronunciou um mantra em sua cabeça que havia aprendido há muito tempo nas aulas de meditação que ‘supostamente’ servia para lhe dar equilíbrio e serenidade.
Mas, quando se tratava da família do seu ex, não havia mantra que funcionasse.
Nenhum, a menos que o divórcio fosse considerado um mantra muito poderoso porque foi o único que funcionou para ela, mas é claro que isso não era uma opção para sua filha que, além disso, adorava a tia e a avó.
Ela ficou em silêncio, repetindo seu mantra enquanto a filha continuava chorando.
Não sabia que diabos lhe dizer porque, se dependesse dela, ela a aconselharia a mandar todos à merda como ela mesma fez uma vez.
Franziu o nariz porque sabia que sua filha não mandaria ninguém da família à merda porque Penny tinha um problema pelo qual ela mesma passou até que reagiu.
O poder de dizer ‘Não’.
Penny estava muito longe de entender que, às vezes, dizer ‘Não’ traz paz à vida, mesmo que a paz seja acompanhada por uma ruptura familiar.
— Bem, vou fazer um café e um bolo que planejava fazer de qualquer maneira. Creio que será perfeito para conversar.
— Vou ajudar.
— Vamos ver, porque você não vai chegar perto da minha mistura para bolo de jeito nenhum, pois você está tão triste que tenho certeza que, ao tocá-la, o bolo não vai crescer
— Exagerada — Penny revirou os olhos com um meio sorriso.
Talvez fosse, no entanto, conseguiu que ela não chorasse tanto e que desse um meio sorriso.
Rita pegou os ingredientes que foi pesando enquanto o café estava sendo preparado na cafeteira elétrica.
Quando o café ficou pronto, serviu a bebida em duas xícaras e colocou açúcar em ambas.
Entregou uma a Penny.
Sua filha fechou os olhos, sentiu o cheiro do café e depois tomou um gole.
Rita sorriu, certos costumes perduravam com o tempo. Esse gesto de Penny com seu café existia desde que ela experimentou a bebida quando era adolescente.
Ela dizia que o cheiro do café a acalmava.
Rita pegou a batedeira e começou a preparar uma mistura para bolo simples de baunilha.
Cotton Candy, mais conhecido como CC, veio até a cozinha para verificar que tudo estava em ordem e, é claro, para fazer a festa com Penny com quem sempre brincava maravilhosamente.
CC era um Coton de Tulear, branco, originalmente de Madagascar, que Rita adotou desde que era recém-nascido.
Era o segundo dessa raça que ela tinha.
CC se levantou sobre as duas patas aos pés de Penny e ela sentou-se no chão com a xícara de café para brincar com o cachorro.
Rita sorriu, amava sua solidão tanto quanto sentia falta do dia a dia com seus filhos.
Chegar em casa e encontrar Penny no sofá, dormindo abraçada a CC ou repreender Tyler por deixar as coisas espalhadas pela sala de estar.
— Tia Serena ligou para mim hoje de manhã e me fez anotar uma lista de pessoas que não faço ideia de quem sejam, mas que devo convidar para o meu casamento porque são amigos da família.
Rita bufou com muita ironia. Ela conhecia muito bem essas histórias.
— Fizeram o mesmo quando me casei com seu pai e comecei a ser persona no grata desde então porque me recusei, melhor dizendo — ela corrigiu-se, balançando a cabeça —; nos recusamos, seu pai e eu, só que eu fui a porta-voz e por causa disso comecei a acumular pontos negativos.
— Não quero convidar essa gente.
— Você disse isso a ela?
— Não — ela começou a chorar de novo e CC a lambia desesperado porque queria aliviar sua dor. — É meu casamento, tenho o direito de escolher tudo o que quero e o que não quero. Nem mesmo a mãe de Todd está fazendo tal exigência.
— Você ganhou o paraíso com a mãe de Todd, querida.
— Ela diz o mesmo a Todd a seu respeito.
Rita sorriu. Não era a melhor amiga de sua consogra, mas compartilhavam muitas coisas e souberam respeitar a opinião da outra nas poucas vezes em que discordaram.
— O que você vai fazer?
— Pedir sua ajuda?
Rita deu uma gargalhada sincera.
Penny a observou com apreensão.
— Você não está falando sério, Penny?
— A quem mais vou recorrer?
— Seu pai? — Rita olhou para a filha com sarcasmo. — É ele quem deve se encarregar de sua família. Há milênios que não falo com nenhuma delas e não vou começar agora porque você não aprendeu a dizer ‘NÃO’ às pessoas — ela caminhou até o forno e verificou o bolo, embora não houvesse nada para verificar, pois ainda não era a hora. Ela cruzou os braços e se virou para ver Penny se levantar do chão para sentar nos banquinhos da ilha da cozinha. — Ligue para sua tia e diga que os convidados dela estão fora do seu orçamento ou ligue para seu pai e peça que ele fale com elas.
Penny começou a chorar mais uma vez.
Esperou até que ela se acalmasse um pouco.
— É seu casamento, Penny e lamento que você esteja tão estressada por causa dos outros —ela suspirou, caminhando até a filha para abraçá-la. — Não vou ligar para Serena, nem pense nisso, mas posso ligar para seu pai. Acredito que surtiria mais efeito se você chorasse assim com ele.
— Não quero incomodá-lo, mamãe. Ele está passando por uma situação angustiante e …
— Aconteceu alguma coisa com ele? — Penny negou com a cabeça. — Louise? — Penny negou.
— Pelo amor de Deus, Penny! Fala! — Rita sentiu que começava a se desesperar.
— Papai está se divorciando, de novo.

***

Várias horas depois, Rita ainda estava em estado de choque com a notícia de que su ex-marido estava se divorciando pela segunda vez.
Terminou de limpar a cozinha e guardou o pouco que restou do bolo que ela e Penny haviam devorado.
Não tinha sentido tanta ansiedade desde que descobriu que Bill ia se casar pela segunda vez.
Ela fez uma careta.
Não que ela estivesse convencida do amor puro e sincero que Bill dizia sentir por Louise, de jeito nenhum.
Conhecia Bill o suficiente e só era preciso olhar em seus olhos quando Rita estava no mesmo lugar que ele para perceber que ele ainda sentia algo por ela, por isso sempre acreditou que seu relacionamento com Louise era apenas para não se sentir só, porque Bill não era homem para viver sozinho.
O telefone tocou.
— Rita?
— Hazel, como você está?
— Um pouco cansada. Acabo de encerrar o treinamento de hoje com dois Rottweiler que pareciam qualquer coisa, menos cachorros. Um acreditava ser um canguru e o outro um leão após ter comido uma zebra sozinho.
Rita resmungou divertida.
— Conseguiu endireitá-los?
— Bem, você sabe que isso não acontece da noite para o dia, mas — Hazel suspirou — …não é por isso que estou ligando para você.
— Você está bem?
— Não, mas também não estou ligando por causa de como estou —Hazel parecia ansiosa. — Não me leve a mal, amiga…
— Você sabe que não sou do tipo que fica irritada quando segredos não são contados.
— E que segredo!
— Embora esteja morrendo de vontade de saber e você não esteja facilitando as coisas para mim.
— Não, é um assunto delicado sobre o qual falaremos mais tarde, outro dia. Talvez até lá, tudo já esteja esquecido.
Rita riu. Hazel sempre fazia perguntas que ela mesma respondia durante uma conversa quando estava nervosa.
— Então, se não é para trocar informações sobre nossas vidas, suponho que você queira fazer uma mudança no horário da faxineira.
— Trocar informações sobre nossas vidas? — Hazel repetiu com curiosidade.
— Primeiro, vamos conversar sobre o motivo pelo qual você me ligou.
— Ok, ok, sim, amanhã terei o canguru e o leão de novo então vai ser difícil ter estranhos em casa. Que outro dia você tem livre?
Rita foi até seu escritório e abriu a agenda.
— Daqui a três dias.
— Espera — sabia que Hazel também estava checando sua agenda. — Sim, neste dia tenho alunos normais.
Ambas riram e Rita observou através da janela que CC saltitava, mordiscando o ar.
Então viu as crianças na casa da árvore rindo divertidas.
— Meus pequenos vizinhos estão alimentando CC.
— Você vai ter que me trazer esse glutão para que ele entenda que não pode aceitar comida de estranhos.
— Vai lhe dar uma dor de barriga, com certeza.
— Pois vamos ver se ele aprende a lição desta vez.
Rita então notou que as crianças se assustaram e olharam pela outra janela da casinha. Elas assentiram e depois desceram.
A cerca de ripas de madeira que tinha era alta, impedindo-a de ver o outro lado, mas com certeza teriam percebido o que as crianças estavam fazendo e, portanto, as fizeram descer. Sentiu pena das crianças que pareciam estar se divertindo com a travessura; e ao mesmo tempo, entendia e aplaudia os pais que as repreendia.
— Então, Hazel, já deixo Ivonne agendada para você daqui a três dias. Ela pegou o telefone do trabalho e enviou uma mensagem de texto para Ivonne.
“Cancelada a limpeza de manhã. Reprogramada para sexta-feira no mesmo horário”
— Como estão os preparativos de Penny e Todd?
— Nem me fale sobre isso porque hoje ela apareceu chorando.
— Não me diga que eles terminaram.
— Não, por favor, nada disso. É que minha cunhada e sogra estão intervindo e bem … você sabe como elas são.
— Algum dia você vai parar de chamá-las de ‘cunhada’ e ‘sogra’? Para elas, você se divorciou do homem que ainda ama.
Rita deixou o ar sair do seu corpo de maneira tão barulhenta que Hazel parou de falar.
— O quê?
— Precisamos beber três garrafas de vinho e contar as novidades, amiga.
— Bem, venha, não tenho três garrafas de vinho, mas posso pedir a Ayana para trazer mais quando sair do trabalho.
— Não, Hazel, hoje não posso ficar acordada até tarde e ainda não estou com vontade de falar sobre isso. Parece que vamos guardar nossos segredos até amanhã à noite — viu CC sentado no jardim esperando que as crianças da casa da árvore voltassem. — Ei, querida, vou deixá-la porque vou fazer com que o glutão do meu cachorro entre em casa porque ele continua esperando por mais comida e não quero ter uma noite ruim por causa dele. Nós nos vemos amanhã?
— Irei esperar por você. Peço comida para o jantar?
— Chinesa, com muita gordura, posso parar na Cheesecake Factory e comprar a sobremesa.
— Se você já não estivesse divorciada, começaria a ficar assustada. A última vez que comemos o mesmo cardápio, foi há dez anos quando você me contou que ia se divorciar de Bill.
— Humm — respondeu Rita, lembrando-se daquele dia. — Vamos conversar em breve. Preciso deixá-la.
— Que hora péssima para fazer isso, pelo amor de Deus.
— Bem, estamos quites porque você também não me deixa muito bem com seus mistérios.
— Ok, ok, nós nos vemos amanhã.
Elas desligaram e Rita saiu para buscar Cotton Candy. Não era tarde, mas queria tomar um banho quente, afastar os pensamentos em relação a Bill e seu novo divórcio e tentar ter uma boa noite de sono para que pudesse ser um grande apoio para sua filha no dia seguinte.

Romance com diferença de idade.
A irresponsabilidade e o desejo imediato de viver aventuras levaram Hazel a ter que enfrentar responsabilidades para as quais não estava preparada aos 20 anos.

Ser mãe solteira, por exemplo.

Ela pensou que essa era sua oportunidade para criar um filho como gostaria que sua mãe, rígida e pouco carinhosa, a tivesse criado.

Então, enquanto Hazel era a mãe mais ‘legal’ entre os amigos de Ayana, esta procurava uma maneira de se afastar dela porque não queria ter uma melhor amiga como mãe.

‘A colega de quarto’ como costumava chamá-la quando se enfurecia com ela porque o que Ayana mais desejava era ter uma mãe ao seu lado.
Até que o abismo entre elas se torna enorme e Ayana decide colocar distância entre elas que permitirá a ambas analisar profundamente seu relacionamento.

Enquanto isso, Hazel se envolve com Marcel, vários anos mais novo do que ela, conhecido de sua filha e que colocará seu mundo de cabeça para baixo, mas que também dará a sua vida o equilíbrio necessário para perceber os erros que cometeu com Ayana.

Ela será capaz de curar o relacionamento com sua filha e encontrar o amor verdadeiro com Marcel?
Ayana será capaz de aceitar esse relacionamento entre eles.

Ayana serviu-se de uma taça de vinho e tomou um gole.
Estava cansada. Queria preparar o jantar, tomar um banho e meter-se na cama, mas Malihk lhe havia dito que chegaria naquela noite e ela queria esperar por ele.
Ela não o via há uma semana porque seu trabalho exigia viagens constantes aos estados mais próximos e às vezes, ele tinha que ficar fora de casa por vários dias.
Casa.
Ela sorriu feliz e cheia de ilusões, olhando ao seu redor porque eles tinham uma casa.
Um lar.
Que ela adorava e que foi decorando de acordo com o gosto de ambos naqueles meses.
Não podia reclamar de nada, mas, se fosse por ela, mudaria a profissão de Malihk para que ele não tivesse que viajar tanto porque ela sentia muitas saudades dele quando não estava com ele.
— Alexa, coloca minhas favoritas do Spotify — ela deu a ordem em enquanto tirava da geladeira aquilo que ia precisar para preparar o jantar.
Não seria grande coisa porque Malihk se cuidava muito e gostava de comer saladas frescas com um pouco de proteína à noite.
Ela se acostumou a comer da mesma maneira, embora não fossem seus jantares favoritos.
Preferia as pizzas com Coca-Cola ou os pratos enormes de massa que comia com Sander quando iam ao Dino’s.
Ela respirou fundo.
Sander.
Não falava com ele há meses. Ele não atendia suas ligações e não podia culpá-lo inteiramente porque havia se comportado com ele da mesma maneira desde que lhe comunicou sua intenção de ir embora com Malihk e ele não parava de dizer que ela estava cometendo um erro gravíssimo.
A verdade era que Sander não havia aceitado Malihk desde o início. Desde que mencionou no consultório que gostava desse homem, que era seu tipo ideal e que percebia que ele parecia estar interessado nela.
Ele está interessado em levá-la para a cama porque você é carne fresca, mais nada.
Aquele comentário de Sander caiu como uma bomba em seu estômago porque seu amigo do coração podia ser cruelmente sincero, mas nunca com ela.
E as coisas pioraram depois, quando Malihk visitava o consultório com mais frequência, oferecendo os produtos odontológicos fabricados pela empresa para a qual trabalhava.

Sander adotou uma atitude que Ayana considerou ridícula e imatura. Parecia incomodá-lo que ela estivesse feliz.
Ela explicou que não deixaria de ser sua amiga por estar com Malihk, mas Sander se recusava a aceitar e respeitar, então ela começou a se distanciar quando as visitas de Malihk começaram a ser mais frequentes e mais interessadas nela.
Essas visitas iniciaram as conversas entre eles, dando origem a convites que foram inesquecíveis e doces até que as centelhas da paixão surgiram uma noite e Ayana percebeu o que desejava: estar completamente com esse homem que ela não conseguia — nem queria — parar de pensar.
Tudo nele era maravilhoso e perfeito.
Sua voz, com a qual dizia as palavras exatas que ela gostava de ouvir, e também usando aquele tom que a excitava.
Seus olhos, que olhavam para ela com paixão e desejo, com amor e ternura; seus braços, que a envolviam sempre para protegê-la de tudo e de todos.
Suas mãos, que sabiam onde e como tocá-la.
Sua boca…
Sua língua…
Ayana salivou ao pensar como era delicioso estar nua debaixo dele, permitindo que ele fizesse amor com ela como só um homem sabia fazer, porque era isso que ele era: um homem.
O homem que ela queria.
O que ela precisava.
E Sander não entendia isso.
Ele chegou ao ponto de dizer-lhe que estava confundido seus sentimentos por Malihk porque estava projetando um problema emocional com seu pai.
Ela resmungou, balançando a cabeça como sempre fazia quando pensava nisso porque seu amigo não podia estar mais longe da realidade.
Como ela podia ter um problema emocional com o pai se não tinha pai?
Não era que eles não se vissem ou quase nunca se falassem ou que, talvez ele tivesse fugido e que sua mãe, pelo menos, soubesse o nome do seu progenitor.
Mas não.
Sua mãe, como sempre, com aquela atitude jovem e irresponsável, um dia decidiu transar com o primeiro garoto que encontrou, um que conhecera naquela noite e que sabia que não veria mais e puf, ficou grávida.
Ela franziu o cenho com essa lembrança porque sempre a deixava amargurada pensar na atitude de sua mãe.
Ela parecia uma adolescente trancada no corpo de uma adulta.
Ela se comportava e se vestia como uma mulher muito mais jovem que queria ser sua amiga.
E não.
Ayana queria uma mãe. Não uma amiga.
Ela passou por muitas tristezas na adolescência por culpa dela, observando seus amigos babarem quando sua mãe estava em casa; sendo a desculpa dos outros, que diziam que iam visitá-la quando, na verdade, queriam ver sua mãe.
E ela, sua mãe, em vez de assumir seu lugar, não, o que ela fazia era piorar as coisas sendo simpática, conversando com os garotos como se fosse amiga deles e tentando conhecer os segredos de Ayana como se fossem amigas de infância.
Talvez por isso Ayana não tinha amigas da infância.
Ela fez uma careta porque para ela esse amigo era Sander.
Agora ele estava irritado, mas tinha esperança de que as coisas com ele se resolvessem e pudessem compartilhar as experiencias novamente como sempre fizeram.
Ela comeu um pedaço de cenoura que estava cortando à Julienne.
A alface estava na tigela com água e vinagre.
Tinha pepinos, tomates, cebolas e azeitonas.
Ela pensou novamente em sua mãe e que deveria ser justa com ela porque parecia que ela finalmente se comportava como uma mãe. Elas conversavam de vez em quando, de maneira normal, sem perguntar coisas que não deviam.
Elas se viram apenas uma vez, no casamento de Penny.
Malihk ficou ofendido por ela ter pedido que ele não fosse.
Por que você está me escondendo da sua família?
Ela o escondia de sua mãe, não do resto; e era algo que ela lhe explicava sempre que o assunto surgia.
Sabia que Hazel não armaria um escândalo porque Malihk era muito, muito mais velho do que ela.
Hazel era promotora da liberdade e do amor entre raças, gêneros ou o que fosse, desde que todos fossem adultos e estivessem agindo por vontade própria.
Ela sabia que tinha isso a seu favor.
No entanto, Ayana não podia deixar de temer que sua mãe fosse tão simpática, madura e especial que Malihk começasse a olhar para ela como seus amigos haviam feito no passado.
Claro que ela nunca se atreveria a contar isso para ele porque seria como lhe dizer que ela duvidava do relacionamento que tinham, do seu amor por ela.
E não era o caso.
Ayana estava segura, confiante e tranquila com o que tinha com ele. Só queria consolidar mais o relacionamento e depois faria a abordagem.
Ela olhou ao redor, percebendo que já estava quase tudo pronto.
Prepararia um molho doce daqueles que Malihk tanto gostava e depois iria tomar um banho para estar pronta e sexy para quando seu homem chegasse à casa.
Ela sorriu com malícia ao pensar nisso.
Ela terminou a taça de vinho e quando estava prestes a se dirigir ao banheiro, a campainha tocou.
Pareceu-lhe estranho porque não esperava visitas. Não que ela tivesse alguma que pudesse passar por ali para vê-la, não havia feito amigos desde que chegou ali porque sua vida era Malihk e o emprego novo que ele conseguiu para ela.
Ela abriu a porta, deparando-se com uma mulher que sorria para ela de maneira suspeita.
A expressão no rosto da mulher a confundiu porque estava tentando ser amável e tranquila, mas, ao mesmo tempo, o olhar dela refletia superioridade.
— Boa noite — ela cumprimentou de maneira cortês.
— Boa noite — respondeu a mulher. — Você é Ayana?
Ayana assentiu, mantendo o sorriso.
— Precisamos conversar, posso entrar?
Ayana franziu o cenho e olhou em volta porque não se sentia segura com essa mulher ali, dizendo que precisava entrar em sua casa para conversar.
Conversar? Sobre o quê?
— Sinto muito — ela olhou para a mulher com confusão. — Não entendo sobre o que vamos conversar e… quem é você?
A mulher levantou a sobrancelha direita e seu olhar compassivo passou a ser hostil.
— Sou a esposa de Malihk.

***

Ayana acordou no chão, desorientada.
Ela moveu a cabeça de um lado para o outro e de repente as imagens começaram a surgir em sua cabeça, avisando-a de que algo estava errado e que precisava acordar para poder entender que diabos havia acontecido.
Ela viu a mulher sentada em uma cadeira na sua frente.
Franziu o cenho.
— Como você está? — perguntou a mulher, Ayana fez uma tentativa de se sentar, mas não conseguiu. Estava muito tonta.
Ela percebeu que sua cabeça estava apoiada em uma almofada.
— Você? O que…?
A mulher, sentada com uma postura perfeita, como se fosse um membro da aristocracia, olhou para Ayana com sarcasmo e semicerrou os olhos.
— Você acreditou em tudo o que eu te disse, não foi?
Ayana lembrou-se do que ela lhe havia dito antes de desmaiar e sentiu o ardor em seus olhos, a angústia no peito e a falta de ar que a dominava.
Ela sentou-se de repente.
Respirou fundo várias vezes porque parecia que ia se asfixiar.
— Você está tendo um ataque de pânico. Respire e acalme-se, um desmaio é o suficiente para assimilar sua surpresa com a minha visita. Em vez disso, me agradeça por salvá-la antes que essa farsa continue por mais tempo e as coisas fiquem mais complicadas entre vocês.
— Malihk não pode ser casado — protestou Ayana com a voz, as mãos e os lábios trêmulos.
— Ele é — respondeu a mulher com cansaço. — Há 25 anos.
Ayana franziu o cenho e começou a balançar a cabeça. Parecia que ela havia batido em algo.
A dor não era física. Ela entedia que era apenas um golpe emocional que estava recebendo e que seu corpo estava somatizando-o muito bem.
Ela se encostou contra a parede. A mulher continuava em seu lugar.
— Meu nome é Keisha — Keisha olhou atentamente para ela antes de continuar—: Malihk e eu nos conhecemos quando ele tinha apenas dezenove anos. Ele tinha estado fora do sistema por um ano porque viveu toda sua vida em lares adotivos e quando finalmente alcançou a maioridade, começou a viver nas ruas — Ayana sabia disso porque ele lhe contou. As lágrimas não paravam de cair dos seus olhos. — Vejo que ele te contou.
Ayana apenas assentiu. Tinha os lábios franzidos e uma força indescritível estava se acumulando dentro dela. Era uma mistura de emoções que não sabia distinguir porque nunca havia sentido nada parecido antes.
— O fato é — continuou Keisha —, que eu estava em seu caminho no dia certo e consegui salvá-lo de ir para a prisão só por ser afro-americano.
— Ele me contou sobre todas as injustiças que viveu por causa disso.
— Ele costuma contar.
Ayana sentia que seu cenho ficaria franzido para o resto da vida já que não conseguia apagar essa expressão do seu rosto.
Keisha resmungou indignada.
— Você não é a primeira que ele engana, querida.
Ayana sentiu mais uma vez que ficava sem ar.
— Olha, vou te contar a versão curta da história porque não quero ficar aqui mais tempo do que o necessário. Malihk e eu temos muita coisa para resolver quando eu chegar em casa — ela olhou as unhas, como se estivesse admirando sua manicure perfeita e a aliança de casada que usava no dedo anelar. Ayana reparou nisso pela primeira vez e abriu a boca para inspirar a maior quantidade de ar possível. — Sou uma advogada criminalista e tenho um escritório de advocacia bastante conhecido com o qual dei uma oportunidade de trabalho a Malihk para que ele se reerguesse. As leis não eram o seu forte — ela sorriu. Ayana percebeu que o fez com doçura. Ela o amava de verdade? — Ele era um jovem inquieto, com vontade de aprender e progredir, por que não lhe dar uma oportunidade? Por meio do escritório, ofereci-lhe uma bolsa de estudos para que estudasse o que quisesse com a condição de que continuasse trabalhando para mim.
Ela semicerrou os olhos, divertida e sarcástica.
— Ele era muito bonito, tão bonito quanto é agora — ela continuou —; e eu, sempre tive um fraco por homens mais jovens do que eu. Eles são mais divertidos e desinibidos. Bem, começamos a ter encontros sexuais que levaram a sentimentos. Dos quais eu me aproveitei no momento certo porque Malihk é manipulável e eu gosto de manipular as pessoas.
Ayana arregalou os olhos horrorizada. Queria dizer tanta coisa, mas ao mesmo tempo não conseguia fazer com que as palavras saíssem da sua boca.
— Não é um pecado ser manipuladora, linda, e acredite em mim, você ganha muito com isso. Enfim — ela se acomodou com classe em seu assento. — Sou para ele tudo o que ele nunca teve. E ele sempre foi grato a mim. Em dívida. Por isso, ele sempre volta para mim quando descubro este tipo de coisa. E não me importa, é uma dinâmica que nos mantém vivos. Ele é treze anos mais novo do que eu e, embora não me considere velha, tenho que reconhecer que não tenho a mesma energia que antes. Ele está chegando à crise dos cinquenta e quer estar cercado pela juventude. Posso culpá-lo quando sei como ele se sente porque eu sou da mesma maneira?
— É doentio — Ayana ouviu-se dizer—; tudo isso, vocês. É…
— E você é muito ingênua.
Ela sentiu uma raiva profunda ao ouvir a mulher dizer isso.
— Por que você permite que ele continue com isso?
Ela deu de ombros.
— Eu já te disse, é um jogo estranho que continua nos mantendo unidos. Porque ele não vai me deixar mesmo que queira. Eu o deixo respirar, porque ele precisa. Não quero ficar sozinha nessa idade, querida. Não está nos meus planos e Malihk continuará comigo até eu morrer. Isso não tem discussão.
— É cruel.
— Ele não se importa e eu nunca o enganei sobre isso. Nosso contrato de casamento tem certas cláusulas que, como eu lhe disse antes, mesmo que ele queira se divorciar e me deixar, não conseguiria se livrar da responsabilidade de cuidar de mim até que eu morra. Ele aceitou essa condição quando nos casamos. Ele entendeu que as consequências disso serão graves para ele e para a vida que ele está acostumado a levar.
Que vida? Se ela sabia que Malihk era um homem simples e trabalhador.
Ayana não sabia mais como se sentir porque agora seu estômago estava revirando.
Que diabos ela estava ouvindo?
— Malihk está brincando com você e agora é a hora dele voltar para casa e você encontrar alguém que a valorize de verdade.
Ayana não conseguiu controlar o choro que se tornou histérico enquanto agarrava a cabeça e olhava com desespero para a mulher.
Ela olhou para Ayana com pena. Ela levantou-se, colocou a cadeira de onde a tirou e depois caminhou até Ayana que ainda estava perto da saída.
Keisha agachou-se ao seu lado, entregando-lhe um lenço branco e delicado que tirou da bolsa; depois, deu um ligeiro aperto em seu ombro.
— Sinto muito, Ayana, mas também sei que você vai superar essa experiência ruim. E pelo que investiguei, você tem sua família em Savannah. Volte para casa e consiga um candidato melhor.
Ela se levantou e saiu da casa tranquilamente, deixando Ayana no chão não só com o coração partido, não.
Toda a sua vida começava a desmoronar.

***

Há três dias, Malihk entrou pela porta da casa, encontrando Ayana chorando desconsolada no chão, junto à porta.
Sem perguntar que diabos estava acontecendo, nem demonstrar um pingo de preocupação por desconhecer seu sofrimento, ele a abraçou e começou a consolá-la.
Ayana entendeu que ele sabia de tudo o que aconteceu.
Sua esposa o teria informado?
Ela se deixou consolar porque precisava disso. Precisava entender, falar, que ele lhe contasse porque, até o momento, tudo parecia um maldito pesadelo.
— Deixe-a, Malihk — foi a primeira coisa que ela disse após estar chorando em seus braços por horas enquanto ele era consumido pela culpa que sempre sentia quando Keisha decidia acabar com seus jogos; embora desta vez, ele lamentasse realmente porque sentia algo diferente por Ayana.
Ele acariciou seu cabelo, beijou o topo da sua cabeça e a puxou mais para perto de si.
— Não posso, mas eu quero.
Quero no presente.
Foi o suficiente para que Ayana sentisse que nem tudo ainda estava perdido e que apesar de ele ter mentindo, eles poderiam começar uma vida juntos, do zero.
Ela iria perdoá-lo. Estava disposta a fazê-lo.
— Quer? — ela se levantou e encontrou seu olhar. Ele assentiu com tristeza. — Então, deixe-a.
— Não posso, pequena. Não posso.
— Nunca mais me chame de ‘pequena’ se não vai lutar pelo que temos. Mas você me ama ou isso também é mentira?
— Eu te amo — ele respondeu, olhando em seus olhos e Ayana soube que ele estava sendo sincero —; não quero mais mentir para você e sim, no início você só estava sendo uma fuga. Até que chegamos aqui, começamos a viver juntos e … — ele envolveu seu rosto com as mãos e acariciou suas bochechas com os polegares. Ele sorriu com profunda tristeza. — Eu te amo, Ayana.

— Então deixe-a, Malihk, por favor, eu lhe imploro. Ouça, vamos para Savannah, pedimos ajuda a minha mãe, não sei, devemos ser capazes de fazer alguma coisa e … e… por favor… estou lhe im-plo-ran-do —Ayana estava de joelhos, segurando as mãos dele. Soluçando de tanto chorar. Desintegrando-se por dentro.
— Eu sabia que isso aconteceria cedo ou tarde e teríamos que nos separar.
— Eu pos-so con-ti-nu-ar a-qui por você.
Ele balançou a cabeça.
— Não e ela poderia tornar sua vida um inferno se percebesse que você é importante para mim.
Ayana chorou mais.
Ele deu um beijo doce e suave em seus lábios.
Ela se agarrou ao seu pescoço e o montou.
— Não me deixe.
— Eu tenho que fazer isso, Ayana. Não tenho outra alternativa.
Ele a abraçou por um tempo com a mesma intensidade que ela.
Ela afundou em seu pescoço, inalou seu cheiro e ficaram ali sabe-se por quanto tempo porque Ayana, três dias depois, só se lembrava de continuar chorando e de repente, acordar na cama. Malihk já tinha ido embora e não havia mais nenhum vestígio dele.
Nesse mesmo dia, ela recebeu a ligação do seu senhorio para lhe oferecer toda a ajuda que precisasse para a mudança. Malihk assim ordenou e o homem, em um ato de simpatia, disse-lhe o quanto lamentava que eles estivessem se separando.
Isso foi como dar de cara com uma realidade que Ayana ainda não estava pronta para assimilar e não sabia se conseguiria fazê-lo em algum momento.
Sentia-se infeliz, miserável, mas também tinha a maldita esperança na defensiva, desesperada por encontrar algo em que se agarrar para recuperá-lo e seguir em frente com a vida — e as ilusões — que tinham.
Como tudo isso aconteceu se ela estava preparando uma salada para recebê-lo de sua viagem ali, em sua casa?
Na casa de ambos.
Ela olhou ao redor.
Uma casa que estava cheia de emoções e risadas, de amor, de estabilidade, de respeito, porque Malihk lhe tinha dado tudo isso.
Ele cuidava dela. Ele a protegia.
Quem faria isso agora?
Quem tiraria aquela sensação de medo que tinha na boca do estômago porque não sabia como enfrentar o que aconteceria a seguir?
Que diabos aconteceria a seguir?
Ela viu uma foto dela e de Malihk. Acariciou o lado em que ele aparecia.

Precisava de um abraço de alguém.
Ela pensou em sua mãe e em Sander e chorou ainda mais porque eram as únicas pessoas que poderiam apoiá-la e eles não estavam por perto.
Queria chorar no ombro de sua mãe como quando era uma garotinha que se machucou e sua mamãe lhe prometia que tudo ficaria bem.
Nada ficaria bem e não queria contar a verdade para ela.
Sander, seria outra coisa. Ela não conseguiria enganá-lo, mas também não permitiria que ele esfregasse em sua cara que estava certo sobre Malihk desde o início. Ayana se recusava a aceitar que havia perdido Malihk completamente.
Não.
Sentia-se exausta e perdida, no entanto, manteria a esperança porque ele disse que a amava.
E ela estava disposta a esperar por ele o tempo que fosse preciso.

Sobre mim…

Sou uma escritora latino-americana independente com mais de 30 livros autopublicados e mais de 45.000 cópias vendidas.
Escrevo livros de ficção romântica: Contemporâneo, Paranormal e Suspense. Alguns dos meus livros foram traduzidos para o Português, Inglês, Italiano, Francês e Alemão
Em 2017, na cidade de Málaga, Espanha (declarada capital da literatura Indie #mesindie), participei como palestrante em uma mesa redonda organizada pela Amazon KDP Espanha, comemorando o mês de autopublicação.
Adoro ler, comer, dançar e tomar café – muito! – também adoro tudo o que está além do que não podemos ver: coisas místicas e paranormais. Talvez seja isso que me fez estudar: Tarô, Wicca, Alta Magia e Reiki.
Agora, eu moro em Málaga – a uma distância muito curta do mar, o que é ótimo – com meu marido e minha filha, que são meu apoio e inspiração para continuar escrevendo.

stefania gil